Ciência e Educação, por Grazielle Russo Estevão

Primeiramente, o conteúdo por si só constitui a ciência que ele ensina. Além da matéria de estudo propriamente que lhe determina o ofício, são planos de aula, programas pedagógicos, abordagens de ensino, técnicas, materiais e recursos que fazem ou deveriam fazer do professor um cientista no sentido mais genuíno do termo. Infelizmente, o modelo programático de ensino hoje no Brasil pouco permite ao educador uma carga horária de trabalho atrelada à análise e à constante pesquisa da própria metodologia de ensino que ele aplica em sala de aula.

Dessa forma, seja na academia ou no contexto educacional, é conveniente o questionamento acerca do que é ciência. Em áreas agrupadas de interesse comum e devidamente sistematizadas em torno de uma terminologia específica deparamo-nos com as classificadas Ciências Biológicas, Exatas e Humanas. Estudiosos de determinadas disciplinas, recém-formados em licenciaturas plenas pelas mais conceituadas universidades do país e atuantes profissionais nas redes de ensino das mais variadas procedências, vêem-se os professores diante de um dilema recorrente: onde se encerra a minha formação?

Mundo globalizado, múltiplas inteligências, currículos multidisciplinares, tecnologias em sala de aula, centro multimídia de estudos e um rol sem fim de adequações que sofrem os antigos modelos de educação, cujos parâmetros se norteavam por processos básicos de aquisição de conhecimento. Assim, ficava tolhida de forma mais ou menos comprometedora, dependendo dos graus de centralização das aulas pelos professores e conservadorismo do arcabouço pedagógico dos mesmos, a participação do coro vibrante de educandos na construção desse conhecimento.

A partir de então, iniciada a carreira de educador, logo ele descobre que, a menos que ele siga os antigos modelos e se conforme em servir como mero instrumento transmissor de conhecimentos pré-estabelecidos, a sua jornada de pesquisador não se encerrará jamais. Entra em cena o personagem de conhecimento que compreende o universo científico para além do maquinário de teorias e terminologias consolidadoras. Um herói, por assim dizer, que irrompe as barreiras de apostilas prontas, do sistema organizado mercadológico das massificadoras instituições de ensino, do fordismo fora de moda que prevê a produção de conhecimento como um produto enlatado pronto para ser engolido e digerido por milhares de seres pensantes. Esses, por sua vez, sedentos de saber, frustram-se pois que a demanda do mercado lhes subjuga a capacidade de pensar, refletir e ser no mundo.

É sem falso alarme que constatamos uma verdadeira crise da ciência, atualmente, em relação à sua projeção na esfera educacional. Por um lado, em geral, o que se vê é ainda uma espécie de hermetismo das teorias científicas desenvolvidas e aclamadas pelas comunidades acadêmicas, talvez por uma questão de linguagem, terminológica e particular, ou ainda pela falta de iniciativa dos centros de pesquisa em promover serviços de caráter educacional à comunidade local etc. Por outro lado, a própria intransigência dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), assim como das medidas educacionais previstas pelo Ministério da Educação (MEC), restringem consideravelmente a promoção de estratégias de ensino menos funcionais e mais interligadas à compreensão de sistemas do pensamento científico em todos os seus âmbitos.

Parece-me que a faca é de dois gumes. Tanto as comunidades acadêmico-científicas, quanto o corpo docente atuante nas escolas, precisam restabelecer os vínculos com o processo genuíno humano de investigar os fenômenos da vida, aproximando esses métodos de construção do conhecimento com o processo de formação de identidade do ser pensante. Uma confluência de paradoxos, sim, que muito remete ao embate eterno entre a objetividade e a subjetividade das experiências científicas. Em outras palavras, parece-me que hoje mais do que nunca não basta mais que o saber científico se consolide através de ações do intelecto somente, mas é preciso viver a ciência e senti-la parte consubstancial do longo processo de busca por respostas que resgatem a integração entre saber e ser.

O educador, dessa maneira, não só serve de instrumento para o despertar de interesse e curiosidade pelo entendimento do mundo por parte de seus alunos, mas também cumpre o papel de lhes fornecer as ferramentas necessárias para que eles possam experienciar o saber. Enfim, uma caminhada que vai muito além da mecânica aquisição de conteúdos pré-estabelecidos. Ao contrário, são os primeiros raios de investigação, observação e constatação dos movimentos da vida que se abrem na escola inserindo o ser-aprendiz no centro deste caminho de construção do conhecimento. Creio que o professor deva resgatar a organicidade da sua própria experiência com o saber promovendo em sala de aula uma compreensão mais ampla de ciência. Aquela que, devido a tantos mal-entendidos históricos e ao desenfreado cientificismo tecnicista e funcional, tem sede de busca por um sentido mais humano e integrado da vida.

Provavelmente, é preciso que o professor reconheça no centro de sua atividade educacional não só o cumpridor de obrigações institucionais curriculares de caráter pedagógico, mas também o eu visionário e errante, o cientista alucinado e inquieto, o poeta, enfim, o romântico alucinado por descobrir métodos que o tornem o germe de inspiração para seus alunos. Exemplo daquele que vive a ciência em muitas instâncias, das mais concretamente verificáveis às mais abstratas observações de seus alunos, por exemplo, de seus temperamentos, personalidades, emoções e tendências comportamentais, o educador é possivelmente aquele que compreende no cerne de sua atividade a bem-vinda confluência de instrumentos objetivos e subjetivos que se complementam na busca pelo saber integral.

Em conclusão, a ciência não se encerra na investigação de uma engenhoca pronta, tampouco nos meios pré-concebidos de se compreender tal maquinário. Mas, contudo, o de deixar vir à tona o pesquisador aguçado e atento aos movimentos que muitas vezes escapam ao olhar determinista. É também o fugir das regras, o erro, o risco. Por essas e outras, o educador constitui o engenheiro do saber, o matemático, o próprio descabelado cientista e também o psicólogo, o ator, o artista, sem que nessa aparente ambigüidade de papéis caiba qualquer contradição.

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2 Comentários

Arquivado em GET - Profissionais 2010

2 Respostas para “Ciência e Educação, por Grazielle Russo Estevão

  1. Brioco

    Concordo com o texto!

    Para mim essa situação é algo cíclico: o aluno aprende na escola a ter essa visão restrita, chega na universidade se depara com uma série de professores presos a tradicionalismos e terminando a graduação o indivíduo reproduz para a sociedade aquela visão “dogmática” da ciência.

    Vamo quebra isso com o plural hehe

  2. Luciana Stoppa dos Santos

    Acho muitíssimo oportuna, urgente, premente a discussão acerca de Ciência e Educação. Educadores que somos, não podemos mais atrelar nosso fazer ao popular jargão: “arte de educar”. Este olhar nos desprofissionaliza e afasta cada vez mais do “fazer ciência”. A prática educativa deve pautar-se nas evidências das ciências e agregar conhecimentos da academia à sala de aula. E acima de tudo deve alimentar-se do genuino processom humano de investigar os fenômenos da vida, como muito bem destacou a Graziella, produzindo conhecimento e oferecendo novas questões para serem pensadas!
    Preocupa-me muito por outro lado o poder que a ciência pode exercer sobre qualquer esfera da sociedade, e também sobre a educação. Para pensar um pouco sobre isso não podemos desconectar da ciência seu viés político(em se tratando de uma realidade capitalista) e econômico. Diante do conheciemento científco, supostamente confiável e neutro (assim acreditava Descartes) teríamos então (paradoxamente) graus de confiabilidade???? Que força tem um educador, por exemplo para “desconfiar” de nomes consagrados que se propõem a oferecer “evidências científicas” e formar educadores para “ensinar crianças” com supostos transtornos de aprendizagem? Infelizmente tenho visto muito mais gente empenhada em “diagnosticar criança” (e isso pressupõe doença) do que em estudar e aprender sobre a criança, para então “educar” criança.
    Infelizmente no Brasil, as discussões realmente relevantes com relação à educação estão muito defasadas. Muito mais do que discutir modismos pedagógicos e diagnósticos, mais iniciativas como esta poderiam se dedicar a estudar questões relevantes para profissionais e educandos! Penso que se não estamos no caminho certo, estamos muito próximos a ele!
    Parabéns a todos que estão apoiando a idéia e àqueles que ainda vão apoiar!

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